Ufes adota ensino remoto e aumenta o fosso da exclusão

 

 

Sob protesto da comunidade acadêmica a instituição adotará o ensino remoto a partir de 9 de setembro. Segmentos afirmam que modalidade não atende toda a comunidade acadêmica

Quando chegou à instância pertinente para sua deliberação, o Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (Cepe), no dia 13 de agosto, a proposta do “Ensino-Aprendizagem [sic] Remoto Temporário e Emergencial” (Earte) já vinha sendo conduzida nas diversas esferas da universidade como se já tivesse sido aprovada. É o que afirma Ana Carolina Galvão, presidenta da Adufes. “Um dos aspectos de sua implantação, o uso da plataforma Google, por exemplo, foi anteriormente aprovado pelo Conselho Universitário”. A problemática envolvendo o ensino remoto e as contradições do modelo foram destacadas durante as votações, principalmente nas sessões do Cepe. O Earte teve votação apertada: 20 votos favoráveis (sendo quatro da gestão – vice-reitor e três pró-reitores) e 13 votos contrários no início das votações da resolução destinada à graduação.

Como a Adufes, representantes dos servidores técnico-administrativos e do movimento estudantil têm apontado a natureza excludente da modalidade, que privará  sobretudo os estudantes mais pobres, negros, quilombolas, indígenas e deficientes de uma experiência educacional adequada. A estrutura necessária para oferecer educação de qualidade e a inadequação do Earte foram amplamente criticadas pela comunidade acadêmica, que realizou debates, campanhas, plenária, protesto – inclusive sob intervenção da Polícia Militar que impediu um ato pacífico no prédio da reitoria no primeiro dia de sessão do Cepe (13/8). O protesto foi divulgado durante toda a tarde nas redes sociais da Adufes que exibiu também vídeos da ação da PM. Em nota de repúdio à interdição truculenta feita pela PM, as entidades apontaram que, desde o início, a  Administração tem agido com indiferença e autoritarismo, em total afronta à comunidade e à qualidade da educação pública. O Andes também repudiou a ação abusiva e publicou matéria.

Sessões Cepe. Para a presidenta da Adufes, Ana Carolina Galvão, as resoluções que foram aprovadas pelo Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão e que tratam do Earte fecham um ciclo que inicia um triste período da história da universidade. Após pedido de participação na sessão, a presidenta da Adufes foi autorizada a falar por 5 minutos. Sua manifestação ocorreu momentos depois da PM impedir o acesso da comunidade acadêmica ao prédio da reitoria no protesto do dia 13.

A reitoria nada fez para interferir na situação e sequer desceu para dialogar com estudantes, técnicos e docentes.  “Se o espaço é democrático, se ele permite a controvérsia e a divergência, os colegas não deveriam ser impedidos de acessar os corredores do prédio da reitoria”, criticou Ana durante sessão no Cepe.  Ela destacou, ainda, o ofício nº 14/2020/GR/UFES em que a reitoria ressalta que está economizando com as atividades remotas, e abrindo possibilidade de recursos para um programa de inclusão digital. No entanto, o ofício se dirige a atender apenas aos estudantes. “Não são apenas estudantes que precisam de inclusão digital. O texto redigido pelo Gabinete comprova que a Ufes está economizando às custas do trabalho remoto e agora vai implantar o ensino remoto sem que até agora tenha apresentado nenhum plano de execução disso em termos da gestão de pessoal.” Leia aqui a íntegra da manifestação 

Sentimento de desamparo. A falta de amadurecimento das discussões é criticada por conselheiros do Cepe que veem dificuldades efetivas no processo de ensino e aprendizagem, seja por parte de estudantes ou de docentes, que estão se sentindo inseguros e desamparados para lecionar remotamente e assegurar a qualidade do ensino.

Para o professor Mário Claudio Simões, que chefia o Departamento de Línguas e Letras (DLL), o maior em número de docentes na Ufes, o processo açodado de tomada de decisão  acabou se materializando em resoluções que trazem uma sobrecarga de demandas aos departamentos e colegiados. “Vamos ter de operacionalizar soluções para encargos docentes, ofertar disciplinas e matrícula em prazos exíguos, tudo isso em um contexto em que todos ainda têm que se familiarizar com os instrumentos a serem utilizados no Earte”.

A forma aligeirada de discussão em torno da retomada das aulas, segundo ele, dá indícios do fracasso da medida e de exclusão. “Em um contexto em que já há tantos estudantes, técnico-administrativos e docentes adoecidos por diversos fatores, impor o início das atividades da maneira prevista nas resoluções, poderá trazer adoecimento para muitos outros”, concluiu.

Precarização do trabalho docente. Outro que critica a falta de debate sobre a adoção do ensino por meios virtuais e sua implementação é o professor e conselheiro Rafael Gomes, para quem as longas e exaustivas sessões no Cepe deram visibilidade ao modo como a universidade estava conduzindo todo o processo.  “É inegável que o Earte não foi discutido satisfatoriamente pela comunidade universitária – mesmo com todo esforço das entidades, departamentos, colegiados, câmaras locais e central de graduação”, frisou Rafael.

Rafael Gomes, que é professor do Departamento de Psicologia Institucional, avalia que a adesão ao Earte contribuirá para a precarização do trabalho docente e perda da qualidade no processo de ensino-aprendizagem. Para ele, “a condução da administração central foi muito apressada e, por isso, pouco democrática por não permitir a manifestação ou a consideração das questões levantadas nos diferentes espaços”.

A reitoria anunciou em seu Portal, nesta terça-feira,18, a aprovação da Resolução nº 30/2020, que define as regras para a implementação do Earte e a oferta de disciplinas do semestre especial de 2020 nos cursos de graduação. Também divulgou a  aprovação da Resolução nº 31/2020, que define o calendário acadêmico para o semestre especial 2020/1. A Administração Central faz referência à preservação do direito à educação, nos textos das resoluções e nas chamadas para cadastro de auxílio voltado à inclusão digital, o que, na visão das entidades representativas dos três segmentos é insuficiente, no contexto de pandemia, para resguardar de fato o direito à educação.

Fonte: Adufes